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HISTÓRIA
DA GURGEL MOTORES
A cidade de Rio Claro, no interior
de São Paulo, já sediou uma importante indústria
nacional de automóveis que em 25 anos produziu
utilitários, carros urbanos e até elétricos.
Foi fundada em 1º de setembro de 1969 pelo engenheiro
mecânico e eletricista João Augusto Conrado
do Amaral Gurgel, que sempre sonhou com o carro genuinamente
brasileiro. Devido às exportações
que sua empresa passou a fazer com o sucesso dos produtos,
ele sempre dizia que sua fábrica não era
uma multinacional, e sim "muitonacional". O
capital era 100% brasileiro.
Este homem dinâmico e de
grandes idéias formou-se na Escola Politécnica
de São Paulo em 1949 e, em 1953, no General Motors
Institute nos Estados Unidos. Conta-se que, ao apresentar
o projeto de um automóvel popular, o Tião,
ao professor, teria ouvido: "Isto e coisa para multinacionais.
Carro não se fabrica, Gurgel, se compra".
Gurgel começou produzindo
karts e minicarros para crianças. Em 1969 fundou
a Gurgel Veículos, seu primeiro modelo foi um bugue
com linhas muito modernas e interessantes. Chamava-se
Ipanema e utilizava chassi, motor e suspensão Volkswagen.
Gurgel sempre batizou seus carros com nomes bem brasileiros
e homenageava nossas tribos de índios.
Em 1973 chegava o Xavante, que
deu início ao sucesso da marca. Este foi seu principal
produto durante toda a evolução e existência
da fábrica. De início com a sigla X10, era
um jipe que gostava de estradas ruins e não se
importava com a meteorologia. Sobre o capô dianteiro
era notável a presença do estepe. Sua distância
do solo era grande, o pára-brisa rebatia para melhor
sentir-se o vento e a capota era de lona. Tinha linhas
curvas, seguindo uma tendência dos bugues da época.
Um par de pás afixadas nas portas chamava a atenção
e logo anunciava o propósito do veículo.
O jipe era equipado com a tradicional,
simples e robusta mecânica Volkswagen refrigerada
a ar, com motor e tração traseiros. O acesso
ao motor nunca foi dos mais favoráveis: era feito
por uma tampa estreita e não muito comprida. O
chassi era uma união de plástico e aço
(projeto patenteado pela Gurgel desde o início
de sua aplicação, denominado Plasteel),
que aliava alta resistência a torção
e difícil deformação. A carroceria
era em plástico reforçado com fibra-de-vidro
(FRP). Conta-se que, na fábrica, existia um taco
de beisebol para que os visitantes batessem forte sobre
a carroceria para testar a resistência. Não
amassava, mas logicamente o teste pouco comum era feito
antes de o carro receber pintura.
Pelo emprego destes materiais a
corrosão estava completamente banida. A carroceria
e o chassi formavam um só bloco. As rodas, as mesmas
da Kombi, eram equipadas com pneus de uso misto. A suspensão,
como no Fusca, era independente nas quatro rodas, em um
conjunto muito robusto , mas na traseira a mola era helicoidal,
em vez da tradicional barra de torção. Para
subir ou descer morros não havia grande dificuldade.
A carroceria tinha ângulo de entrada de 63 graus
e 41 graus de saída.
Além do Plasteel, outro
recurso interessante do Xavante era o Selectraction. Tratava-se
de um sistema movido por alavancas, ao lado do freio de
estacionamento, para frear uma das rodas traseiras. Era
muito útil em atoleiros, pois freando uma das rodas
que estivesse girando em falso - característica
de todo diferencial - a força era transmitida à
outra, facilitando a saída do barro. Com este sistema
o carro ficava mais leve e econômico do que se tivesse
tração nas quatro rodas e a eficiência
era quase tão boa quanto.
O Xavante logo agradou ao público,
por sair da concepção tradicional dos bugues,
e ao Exército brasileiro, que fez grande encomenda.
Havia uma versão militar especialmente produzida
para este fim, o que deu ótimo impulso à
produção. Na primeira reestilização,
em 1975, as linhas da carroceria ficaram mais retas. O
estepe agora ficava sob o capô, mas o ressalto neste
anunciava sua presença. Sobre os pára-lamas
dianteiros ficavam as lanternas de direção,
idênticas às do Fusca.
Além do X10, mais simples,
existia o X12, versão civil do jipe das forças
armadas. O motor era o mesmo 1,6-litro de um só
carburador, que fornecia 49 cv e usava a relação
de diferencial mais curta do Fusca 1300 (4,375:1 no lugar
de 4,125:1). Atrás das portas havia uma pequena
grade plástica para ventilação do
motor. A velocidade final não chegava a empolgar:
fazia no máximo 108 km/h e de 0 a 100 km/h levava
penosos 38 s. Mas seu objetivo era mostrar serviço
e desempenho com relativo conforto em caminhos difíceis,
pouco apropriados a carros de passeio.

Sua estabilidade era
crítica em ruas de asfalto ou paralelepípedo.
Nas pistas, ruas e estradas era melhor não arriscar
nas curvas. O jipe gostava mesmo de lama, terra, água,
neve, praia, montanha e floresta, que eram seu hábitat
natural. Era fácil de estacionar, de dirigir e
de domar. Por causa de todo o conjunto muito robusto,
era um veículo barulhento para o dia-a-dia.
Em 1974 a Gurgel apresentava um
pioneiro projeto de carro elétrico. O Itaipu, alusão
à usina hidrelétrica, era bastante interessante:
ótima área envidraçada, quatro faróis
quadrados e um limpador sobre o enorme pára-brisa,
que tinha a mesma inclinação do capô
traseiro. Visto de lado, era um trapézio sobre
rodas. Era um minicarro de uso exclusivamente urbano para
duas pessoas, fácil de dirigir e manobrar, que
usava baterias recarregáveis em qualquer tomada
de luz, como um eletrodoméstico.
Ele teria tudo para dar certo se
não fosse os problemas a com durabilidade, capacidade
e peso das baterias, o que até hoje ainda é
um desafio. Um dos modelos elétricos se chamaria
CENA, carro elétrico nacional, nome que ressurgiria
no projeto do BR-280/800, com o "E" representando
econômico".
Em 1976 chegava o X12 TR, de teto
rígido. Suas linhas estavam mais retas e ainda
transmitiam respeito; continuava um utilitário
bastante rústico. Os faróis redondos agora
estavam embutidos na carroceria e protegidos por pequena
grade. Na frente destacava-se o guincho manual com cabo
de 25 metros de extensão, por sistema de catraca,
para situações fora-de-estrada. Na traseira,
sobre a pequena tampa do motor, havia um tanque de combustível
sobressalente de 20 litros ou, como alguns gostavam de
chamar, camburão. Era um dispositivo útil
e bem-vindo para as aventuras fora-de-estrada. Na frente,
o pequeno porta-malas abrigava o estepe e o tanque de
combustível de 40 litros. Para as malas havia quase
nenhum espaço, e o painel, muito simples, continha
o estritamente necessário.

O chassi Plasteel
continuava como padrão, e a fábrica oferecia
uma garantia inédita de 100.000 quilômetros.
Fato interessante é que todo Gurgel tinha carrocerias
originais: o engenheiro nunca copiou nada em termos de
estilo, coisa corriqueira hoje em dia entre fabricantes
de veículos fora-de-estrada. Em 1979 toda a linha
de produtos foi exposta no Salão do Automóvel
de Genebra, na Suíça. Neste evento a propaganda
do jipe nacional e o volume de vendas foram muito bons.
Em 1980, depois de cinco anos de
estudo, outro veículo de tração elétrica,
o Itaipu E400, ia para os primeiros testes. Tratava-se
de um furgão com desenho moderno e agradável.
Sua frente era curva e aerodinâmica, com amplo pára-brisa
e pára-choque largo com faróis embutidos.
Nas laterais havia somente os vidros das portas e os quebra-ventos;
o resto era fechado. O painel era equipado com velocímetro,
voltímetro, amperímetro e uma luz-piloto
que indicava quando a carga estava por acabar. As baterias
eram muito grandes e pesadas, cada uma com 80 kg e 40
volts. O motor elétrico era um Villares de 8 kW
(11 cv) e girava a 3.000 rpm máximas. Apesar da
potência ínfima, os elétricos conseguem
boa aceleração porque o torque é
constante em toda a faixa útil de rotações.
Tinha câmbio de quatro marchas, embreagem e transmissão.
O consumo, se comparado a um carro
a gasolina, seria de 90 km/l, mas a autonomia era pequena,
de apenas 80 quilômetros. Para recarregar eram necessárias
em média 7 horas numa tomada de 220 volts. Devido
a este fator, era um veículo estritamente urbano.
A velocidade máxima estava por volta de 80 km/h
em grande silêncio, uma das grandes vantagens de
um carro elétrico é não poluir com
gases nem com barulho.
Primeiramente ele foi vendido a
empresas para testes. Depois da versão furgão
viriam a picape de cabines simples e dupla e o E400 para
passageiros. O E400 CD (cabine dupla) era um misto de
veículo de carga e passageiros, lançado
em 1983. Com a mesma carroceria foi lançado um
modelo com motor Volkswagen "a ar" e dupla carburação,
que tinha a denominação G800. Ele trazia
a mesma robustez e muito espaço interno para passageiros.
Na versão CD havia um detalhe curioso: três
portas, duas na direita e a outra na esquerda para o motorista.
Do mesmo lado, atrás, vinha um enorme vidro lateral.
Ganhava o passageiro que se sentasse deste lado, pois
tinha ampla visibilidade. O G800 pesava 1.060 kg e podia
carregar mais 1.100kg, sendo um utilitário valente
e robusto.

Em 1980 a linha era
composta de 10 modelos. Todos podiam ser fornecidos com
motores a gasolina ou álcool, apesar de o engenheiro
Gurgel combater muito o combustível vegetal. O
álcool era subsidiado pelo governo, o que tornava
o preço final para o consumidor mais baixo que
a gasolina. Esta era a única forma de estimular
o uso de um combustível que, pelo menor poder calorífico,
resulta em um consumo cerca de 30% maior. O engenheiro
achava que seria mais coerente usar essas terras para
plantar alimentos para a população do que
para alimentar veículos. Mais tarde ele poria fim
às versões a álcool na marca.

Faziam parte da linha
o X12 TR (teto rígido), o jipe comum com capota
de lona (que era a versão mais barata do X12),
o simpático Caribe, a versão Bombeiro, o
X12 RM (teto rígido e meia capota) e a versão
X12 M, militar. Este ultimo, exclusivo para as Forças
Armadas, já vinha na cor-padrão do Exército,
com emblemas nas portas e acessórios específicos.
Numa outra faixa de preço havia o monovolume X15
TR de quatro portas,a picape cabine-dupla CD, a versão
cabine-simples (CS), o cabine-simples com capota de lona
e o Bombeiro. As versões Bombeiro de ambos modelos
eram equipadas com luzes giratórias sobre o teto.
Outros acessórios específicos também
já saíam de fábrica para estas versões.
O X15, lançado em 1979,
era um furgão com estilo bastante original. Parecia
um veículo militar de assalto, um pequeno carro-forte.
Logo teria versões picape de cabine simples e dupla.
O furgão podia transportar até sete pessoas,
ou duas e mais 500 kg de carga. Como os demais, usava
a mecânica VW "a ar". Todos os vidros
da carroceria, inclusive o pára-brisa, eram planos,
sem nenhuma curvatura. Na frente muito inclinada, o pára-brisa
era dividido em dois vidros, sendo que um deles, em frente
ao motorista, ocupava 3/4 de toda a área frontal
na versão militar (na civil os vidros tinham a
mesma largura). Nesta versão também havia
o guincho, faróis protegidos por grade, pequenas
pás afixadas nas portas e capota de lona. Seu ângulo
de entrada e saída para enfrentar rampas acentuadas
era tão bom quanto o do X12. Tinha um ar muito
robusto, com 3,72 m de comprimento, 1,90 m de largura
e a altura total de 1,88 m, era um tijolo sobre rodas.
Os faróis eram embutidos no largo e ameaçador
pára-choque preto.

Em 1981, como novidade
bem-vinda, os freios dianteiros no X12 passaram a ser
a disco e a suspensão dianteira estava mais robusta.
Novos detalhes de acabamento também o deixaram
mais "luxuoso". Para o X15 era lançada
a versão Van-Guard. Atrás dos bancos dianteiros
havia dois colchões com revestimento plástico
estampado, que combinavam com pequenos armários
embutidos. Cortinas nas janelas e até um ventilador
completavam o ambiente descontraído. O carro tinha
um visual hippie. Na parte externa, faixas triplas e grossas
nas laterais e o estepe fixado na traseira com cobertura
nos mesmos tons da carroceria. Tinha só duas portas
e, nas laterais, um vidro basculante retangular grande.
Ideal para quem curtia acampar e programas ecológicos.
Nesta versão ele ficou menos sisudo.
Também foi lançado
o G15 L, picape cabine-simples mais longa (3,92 m) derivado
do X15, que podia transportar até uma tonelada
de carga. O tanque de combustível era de 70 litros
e podia receber outro de mesma capacidade para aumentar
a autonomia (vigorava então o absurdo e ineficiente
regime de postos fechados nos fins de semana). Além
da versão padrão, havia a cabine-dupla de
duas ou quatro portas e a furgão.

A valente empresa
nacional crescia. A fábrica tinha uma área
de 360 mil m2, dos quais 15 mil eram construídos.
Contava com 272 empregados entre técnicos e engenheiros,
que dispunham de assistência médica e transporte.
Só era menor em número de funcionários
do que a Puma, no que se referia a pequenos fabricantes.
Em 1977 e 1978, a Gurgel foi o
primeiro exportador na categoria veículos especiais
e o segundo em produção e faturamento. Cerca
25% da produção seguia para fora do Brasil.
Eram fabricados 10 carros por dia, sendo o X12 o principal
produto da linha de montagem. A unidade de negócios
era o Gurgel Trade Center, numa importante avenida da
capital paulista. Havia um escritório executivo
e um grande salão de exposição, além
de um centro de apoio técnico aos revendedores.
No final de 1981 era desenvolvido
o modelo Xef. Com duas portas e três volumes bem
definidos, era um carro urbano bastante interessante.
Contava com três bancos dianteiros, recurso pouco
comum já aplicado no francês Matra Baghera.
Mas este ultimo era um esportivo. Três adultos de
boa estatura acomodavam-se com dificuldade e o acesso
era digno de contorcionistas. O espaço para bagagem
era mínimo.

Em 1982 o X12 normal
seguia seu caminho na produção e nas estradas
de terra, lama e areia do Brasil. Com a mesma carroceria
mais reta da versão de teto rígido (TR),
continuava com o pára-brisa dobrável e a
capota de lona presa com botões de pressão.
Os retrovisores externos e internos eram fixados na estrutura
do pára-brisa. Tudo muito prático e simples.
A carroceria agora recebia uma faixa branca que contornava
a porta e o pára-lama. As portas eram de plástico
reforçado. O pequeno e simpático jipe recebia
opcionalmente rodas esportivas, brancas e bonitas, de
14 pol (pneus 7,00 x 14) no lugar das originais de 15
pol. Na versão Caribe a capota e os bancos eram
listrados com cores vivas e alegres, que combinavam com
a carroceria no mesmo tom, e as rodas brancas eram de
série.
Em 1983 a versão de teto
rígido do X12 recebia uma clarabóia no teto,
bastante útil para refrigerar a cabine. Um defeito
na versão TR que jamais foi sanado era que sua
porta era presa ao pára-lama dianteiro por dobradiças.
Qualquer um armado com uma chave Phillips podia desmontar
a porta, entrar no jipe para roubar objetos ou mesmo dar
uma voltinha com ele.
No modelo 1985 as novidades externas
eram nova grade, pára-choques e lanternas traseiras.
Por dentro o painel e o volante também eram mais
modernos. A versão de luxo contava com bancos com
encosto alto alem da clarabóia. Na parte mecânica
vinham como novidade ignição eletrônica,
nova suspensão traseira e diferencial com outra
relação, que o deixou mais veloz em rodovias,
econômico e silencioso. No mesmo ano a VW introduziu
no Fusca a relação 3,875:1 como parte do
pacote que objetivava redução de 5% no consumo
médio de combustível. Como a Gurgel dependia
do fornecimento da VW, a modificação foi
estendida ao X12.
No ano anterior, a Gurgel lançava
o jipe Carajás, outro nome indígena. As
versões eram TL (teto de lona), TR (teto rígido)
e MM (militar). Versões especiais ambulância
e furgão também existiram. Um detalhe que
logo chamava a atenção era o grande estepe
sobre o alto capô dianteiro, solução
inspirada nos Land Rovers que prejudicava a visibilidade
frontal. De frente era notável a grade preta com
quatro faróis retangulares, iguais aos do Passat.
Opcionalmente podia vir com o guincho.

O Carajás era
um jipão na melhor definição. Chamava
a atenção por onde passasse. Tinha duas
portas laterais e uma traseira com abertura meio a meio.
Sobre o teto, uma clarabóia para ventilar a cabine.
Dentro havia um forro duplo do teto, com cinco difusores
de ar, dois para os passageiros da frente e três
para os de trás - e funcionava bem. Sobre o teto,
como opcional, era oferecido um enorme bagageiro.
A carroceria, em plástico
reforçado com fibra-de-vidro, tinha sempre cor
preto-fosco no teto. O detalhe podia mascarar sua altura,
mas concorria para aquecer o interior. Os bancos dianteiros,
com encosto para cabeça, corriam sobre trilhos
e facilitavam a entrada de passageiros atrás. A
posição de dirigir era boa só para
as pessoas mais altas.
O chassi Plasteel também
estava presente, junto com o sistema Selectraction. O
motor dianteiro de 1,8 litro e 85 cv, refrigerado a água,
era o mesmo do Santana e podia ser a álcool ou
a gasolina. Depois veio a versão com motor diesel
de 1,6 litro e 50 cv, também refrigerado a água
e usado na Kombi. Um detalhe mecânico interessante
era o TTS.
Para transmitir a força
do motor para as rodas traseiras, era usado o Tork Tube
System, um tubo de aço, com uma árvore de
transmissão de aço em seu interior, que
interligava o motor dianteiro ao conjunto traseiro de
embreagem, câmbio, diferencial e semi-árvores.
Uma ótima solução, encontrada pelo
fato de o Carajás usar quase todo o conjunto mecânico
do Santana, que é de tração dianteira.
A caixa de mudanças, entretanto, era de Volkswagen
"a ar".
O sistema era novidade no país,
baseado num transeixo, ou transmissão e diferencial
juntos, instalados na traseira de um veículo de
motor dianteiro. Mas mostrou-se frágil, pois era
muita potência do motor 1,8-litro transmitida para
o conjunto traseiro previsto para motores 1,6 refrigerado
a ar. A embreagem situava-se na dianteira do veiculo,
junto ao volante motor, sendo um defeito relevante, pois
a troca de marcha deveria ser feita com um tempo maior
em relação a outros veículos, devido
a inércia do conjunto TTS com o eixo primário
da caixa de transmissão.
A suspensão do Carajás
era independente nas quatro rodas. Na frente era utilizado
o conjunto de eixo dianteiro da Kombi, enquanto na traseira
a disposição era de braço semiarrastado
com mola helicoidal. Apesar das dimensões e do
peso do carro, era confortável, ótimo de
curva, de rodar macio e tranqüilo no asfalto ou em
terrenos difíceis. Sua capacidade de carga era
de 750 kg.
Em 1988 eram apresentadas as versões
VIP e LE do Carajás. As mudanças eram na
porta traseira, agora numa peça só; nas
maçanetas, capô e grade frontal, que passava
a fazer parte da carroceria. Na VIP as rodas eram cromadas,
os vidros fumê, a pintura metálica acrílica
e os bancos tinham melhor revestimento. Mas o Carajás
era caro para o público e não alcançou
o sucesso esperado.
Em 1986 o nome do X12 havia foi
trocado por Tocantins, acompanhado de ligeira reforma
estética. O veiculo passou a apresentar linhas
mais modernas, mas ainda lembrando bem suas origens. Ele
deixou de ser fabricado em 1989.

Devido às exportações
para o Caribe, o X12 atrapalhou e encerrou a produção
do VW 181, utilitário de conceito similar feito
pela filial mexicana da Volkswagen. As relações
com a fábrica alemã, que eram ótimas,
foram abaladas, mas o próprio Gurgel não
queria ficar atrelado à VW a vida toda. Ele queria
voar mais alto, e quase conseguiu.
Além dos utilitários,
Gurgel sonhava com um minicarro econômico, barato
e 100% brasileiro para os centros urbanos. Em 7 de setembro
de 1987, segundo ele, dia da independência tecnológica
brasileira, foi apresentado o projeto Cena, "Carro
Econômico Nacional", ou Gurgel 280. Este era
o primeiro minicarro da empresa, projetado para ser o
mais barato do país. Os motores, de configuração
única no mundo, eram como os VW 1.300 e 1.600 cortados
ao meio: dois cilindros horizontais opostos, 650 ou 800
cm3 , mas refrigerados a água. A potência
seria de 26 ou 32 cv conforme a versão.
O carro seria lançado em
opções 280 S, de sedã, e 280 M, de
múltiplo, com capota removível - restariam,
porém, as molduras das portas e vidros laterais,
bem como uma barra estrutural do teto. Solução
interessante era o porta-luvas, uma maleta executiva que
podia ser removida. Com a evolução do projeto,
o motor menor foi abandonado e a cilindrada fixada em
0,8 litro, originando o nome BR-800. O motor fundido em
liga de alumínio-silício era batizado como
Enertron e projetado pela própria empresa. Este
motor foi inteiramente pesquisado e desenvolvido pela
Gurgel no Brasil, e ainda contou com elogios de marcas
consagradas, como a Porshe, Volvo, Citroën e vários
especialistas em motores.

O avanço de
ignição era controlado por um microprocessador
(garantido durante cinco anos) e não havia necessidade
de distribuidor, pois o disparo era simultâneo nos
dois cilindros, idéia aproveitada dos motores Citroën
de disposição semelhante. O sistema de ignição
era outra patente da Gurgel.

O pequeno motor reunia
alguns aspectos notáveis. Por exemplo, podia ser
levado a praticamente 6.000 rpm sem flutuação
de válvula (fechamento incompleto devido à
velocidade excessiva), o que o motor VW não tolerava,
mal passando de 5.000 rpm. A refrigeração
a água com ventilador elétrico funcionava
muito bem. A velocidade máxima era de 117 km/h.
Gurgel, sempre querendo incorporar
avanços, idealizou o motor sem correia trapezoidal
para acionar acessórios, como o alternador, visando
facilidade de manutenção, preocupação
nada desprezível. Para isso, o alternador era acoplado
diretamente ao comando de válvulas. Só que
devido à rotação do comando ser metade
da do motor, o alternador não desenvolvia potência
suficiente em várias condições de
uso, como todos os acessórios ligados ao dirigir
moderadamente. O resultado era a descarga da bateria,
uma inconveniência e tanto para o motorista. Assim,
a fábrica não demorou para voltar atrás
e modificar a montagem do alternador, que passou a receber
movimento do motor pela maneira tradicional de polias
e correia trapezoidal, e com redução apropriada
(cerca de 2:1), resolvendo definitivamente o problema.
O BR podia transportar quatro passageiros
com relativo conforto e 200 kg de carga. Pesava 650 kg,
tinha duas portas e vidros corrediços, o que prejudicava
a ventilação da cabine. Para guardar objetos
no pequeno porta-malas, abria-se o vidro traseiro basculante,
que servia de porta; o acesso não era dos mais
cômodos. Ainda assim era melhor do que a solução
original de vidro traseiro fixo, em que era preciso acessar
aquele compartimento por dentro do carro, como no Fusca.
Por outro lado, o estepe tinha acesso muito pratico por
fora, em uma tampa traseira.
O Governo Federal, num louvável
gesto de apoio à indústria nacional, concedeu
ao carrinho o direito de pagar apenas 5% de IPI (Imposto
sobre Produtos Industrializados), enquanto os demais carros
pagavam 25% ou mais dependendo da cilindrada. O objetivo
de projetar um carro com o preço final de US$ 3000
não se concretizou, o preço acabou ficando
por volta de US$ 7000, mas graças ao incentivo
fiscal, ainda era cerca de 30% mais barato que os compactos
de outras montadoras, a exemplo da época poderíamos
citar o FIAT Uno.
Lançado em 1988, foi produzido
até 1991. De início, a única forma
de compra era a aquisição de ações
da Gurgel Motores S/A, que teve a adesão de 8.000
pessoas. Sob uma campanha convidativa - "Se Henry
Ford o convidasse para ser seu sócio, você
não aceitaria?" -, foram vendidos 10.000 lotes
de ações. Cada comprador pagou os US$ 7.000
pelo carro e cerca de US$ 1.500 pelas ações,
o que se constituiu um bom negócio para muitos
- no final de 1989 havia ágio de 100% pelas mais
de 1.000 unidades já produzidas.
Em 1990, quando o BR-800 começava
a ser vendido sem o pacote compulsório de ações,
quando parecia estar surgindo uma nova potência
(tupiniquim) no mercado automobilístico, o Governo
isenta todos os carros com motor menor que 1000cm3 do
IPI (numa espécie de traição à
Gurgel). Assim a Fiat, seguida por outras montadoras,
lançou quase que instantaneamente o Uno Mille com
o mesmo preço do BR-800, mas que oferecia mais
espaço e desempenho.
Tentando reagir a Gurgel lança
em 1992 uma evolução do BR-800, o Supermini.
Tinha um estilo muito próprio e moderno. Media
3,19 m de comprimento, sendo ainda o menor carro fabricado
aqui. Estacionar era com ele mesmo, devido à pequena
distância entre eixos (1,90 m) e uma direção
leve. Tinha faróis quadrados, grade na mesma cor
do carro, duas portas, dois volumes e boa área
envidraçada. As linhas eram mais equilibradas que
em seu antecessor.

A carroceria era em
plástico FRP e tinha garantia de 100 mil quilômetros,
alta resistência a impactos e, como tradição
da fábrica, estava livre da corrosão. Era
montada sobre um chassi de aço muito bem projetado
e seguro, bem resistente à torção.
Os pára-choques dianteiro e traseiro, assim como
a lateral inferior, vinham na cor prata.

O Supermíni
usava o mesmo motor bicilíndrico, só que
um pouco mais potente (3cv a mais). Todo o conjunto motriz
tinha garantia de fábrica de 30 mil quilômetros.
Os vidros dianteiros não eram mais corrediços
nem tinham quebra-ventos, e agora havia uma verdadeira
tampa de porta-malas. O banco traseiro bipartido possibilitava
o aumento da capacidade do porta-malas. O consumo era
baixo. Fazia 14 km/l na cidade e, a uma velocidade constante
de 80 km/h, até 19 km/l em quarta marcha.
Como destaques tinha motor com
suspensão pendular, com coxim em posição
elevada. A suspensão dianteira já não
era mais a Springshock do BR-800 - mola e amortecedor
combinados, fabricados na própria Gurgel, que apresentavam
enorme deficiência -, mas uma disposição
convencional de braços transversais superpostos
com mola helicoidal. A traseira era por segmento de feixe
de molas longitudinal. A versão SL trazia como
equipamentos de série conta-giros, antena de teto,
faróis com lâmpadas halógenas e rádio/toca-fitas.
Até junho de 1992, 1.500 unidades do Supermini
haviam sido vendidas.
Pouco depois a Gurgel mostrava
o Motomachine, veículo bastante interessante. Acomodava
dois passageiros e usava, entre outras peças, o
mesmo motor do Supermíni. Tinha para-brisa rebatível,
e tanto o teto de plástico quanto as portas em
acrílico transparente eram removíveis. Era
um carro de uso restrito, feito para a curtição
ou o transporte básico nos grandes centros. Poucas
unidades circulam e são dignas de apreciação
e curiosidade.
O próximo projeto, batizado
de Delta, seria um novo carro popular que usaria o mesmo
motor de 800cm3 e custaria entre US$ 4000 e US$ 6000,
mas não chegou a ser fabricado. Gurgel chegou a
adquirir todas as máquinas-ferramenta que acabaram
não sendo usadas.
Atolada em dívidas e enfraquecida
no mercado pela concorrência das multinacionais,
a Gurgel pediu concordata em junho de 1993. Houve uma
última tentativa de salvar a fábrica em
1994, quando a Gurgel pediu ao governo federal um financiamento
de US$ 20 milhões, mas este o foi negado, e a fábrica
acabou fechando as portas no final do ano.
Sem dúvida o grande engenheiro
João Gurgel deixou seu legado na indústria
nacional. Foi um homem à frente do seu tempo, corajoso
e patriota que infelizmente não conseguiu suportar
sozinho a concorrência das grandes multinacionais.
( ESTE TEXTO FOI RETIRADO
DO SITE WWW.GURGEL800.COM.BR )
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